terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A gramática de Emília

A editora Globo prepara a versão turbinada do mais contundente manifesto sobre o ensino do idioma, escrito por Monteiro Lobato (1882-1948). A nova edição de Emília no País da Gramática chega às livrarias até abril, em meio ao relançamento da obra completa do autor, iniciada no ano passado. A obra ganha cores, desenhos de Paulo Borges e uma atualização da nomenclatura, que pretende manter o frescor da abordagem gramatical proposta pela obra lançada em junho de 1934 com 20 mil exemplares.
O criador do Sítio do Picapau Amarelo produziu o livro na mesma década em que traduziu Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1832-1898). A referência, direta, está a serviço do projeto lobatiano de criar um paradidático sobre a língua portuguesa. Mais do que uma peça de ficção pedagógica, no entanto, Lobato constrói uma genuína gramática recreativa, complementar à da escola de seu tempo, ao disfarçar as regras em diálogos e dramatizações.
Pedrinho diz a Dona Benta que o ensino do idioma é uma "caceteação".
- Se meu professor ensinasse como a senhora, a tal gramática até virava brincadeira. Mas o homem obriga a gente a decorar uma porção de definições que ninguém entende. Ditongos, fonemas, gerúndios...
Emília, num sopro, sugere:
- Pedrinho - disse ela um dia depois de terminada a lição -, por que, em vez de estarmos aqui a ouvir falar de gramática, não havemos de ir passear no País da Gramática?
Em cenas como essa, Lobato solta o verbo contra a aprendizagem tradicional do idioma, em voga em muitas escolas mais de 74 anos depois. E encara o ensino de português como o momento em que, mais do que ser apresentado a conceitos e nomenclaturas descontextualizadas dos textos em que os exemplos gramaticais foram retirados, vivencia-se o conhecimento, num divertido passeio.
Vossa Serência

Lobato dramatiza a gramática e literalmente humaniza seus termos. O verbo "ser", os ditongos e as figuras de retórica, por exemplo, viram gente e ganham endereço - a cidade de Portugália, a mais próxima do sítio. O lugar lembra uma fruta incõe (gêmea) ou cidades "emendadas, uma mais nova e outra mais velha". A separação entre as duas partes é marcada por um braço de mar, anota Lobato.
Em carta ao educador Anísio Teixeira, de 21 de novembro de 1933, comentou:
"Inda agora fiz a entrevista de Emília, na qualidade de repórter do Grito do Pica-Pau Amarelo, um jornal que ela vai fundar no sítio, com o Venerabilíssimo verbo SER, que ela trata respeitosamente de Vossa Serência! Está tão pernóstica, Anísio, que você não imagina. Estamos pensando no J. Carlos para ilustrar este livro. Aqui não vejo nenhum desenhista capaz. Ah, se a Emília soubesse desenhar..."
O aprendizado do idioma é um jogo, confere Emília no País da Gramática. Lobato segue a gramática normativa, mas não como um purista. Cita Gramática Histórica de Eduardo Carlos Pereira (editada pelo próprio Lobato, na Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato, nos anos 20) e inspira-se nela. A obra, é verdade, dava engulhos em Lobato, mas não a Quindim, que a comeu depois que o Visconde a esqueceu no pomar. Daí a insólita familiaridade do rinoceronte com o País da Gramática. É providencial a escolha do falante Quindim como guia da aventura, e não de Dona Benta, como de hábito. Dramaticamente, ele funciona como um educador ao nível da turma do sítio, e permite que as próprias crianças escolham o que desejam conhecer no novo mundo que descortinam.
Grafia ortográfica

Lobato muda a seqüência da apresentação de assuntos dada pela gramática de Pereira, para dar relevo à reforma ortográfica, um tema do momento, que eclodiria com o acordo de 1938. Assim, o tema ortografia migra das proximidades da morfologia para instalar-se após o capítulo da pontuação, ao fim do livro. Lobato preferia a grafia fonética, simplificada, à de tradição etimológica e faz Emília pregar o fim de consoantes e vogais desnecessárias. Também faz Quindim defender que os neologismos precisam envelhecer um bocado antes de receber autorização para morar no centro da cidade. Narizinho, por sua vez, acha um abuso que as palavras estrangeiras sejam obrigadas a usar "passaporte" (aspas) ao se transferirem para outras línguas. E uma empolada Dona Etimologia contextualiza a "importância" social do erro de português:
- Por fim há tanta gente a cometer o mesmo erro que o erro vira Uso e, portanto, deixa de ser erro. O que nós hoje chamamos certo, já foi erro em outros tempos. Assim é a vida, meus caros meninos.
Atualização

Para manter o espírito do original, a equipe de professores, pedagogos e lingüistas que prepara a nova edição vai adequar a obra ao conhecimento mais recente na área. O mesmo tratamento será dado a Aritmética da Emília e mais seis obras pedagógicas de Lobato. A Globo relançou até agora seis dos 31 títulos infantis de Lobato (no total, 23 deles são da coleção do sítio). Trouxe também Urupês, o clássico de Lobato para adultos que faz 90 anos em 2008. Já este ano, a editora manterá a média de quatro lançamentos por mês. A meta é colocar no mercado todos os 56 livros de Lobato até dezembro. Um alento aos fãs de Emília e companhia, no ano em que o seriado do Sítio, na Rede Globo, entra em recesso.
O projeto inicial da editora era adaptar a gramática da Emília às mudanças que a disciplina sofreu desde que a obra foi publicada. Mas seriam tantas e tão agressivas intervenções que descaracterizariam o original. Optou-se, então, por sinalizar no livro os trechos que serão contextualizados à luz das recentes teorias da linguagem, em estudo ao final do volume.- Chegamos a fazer um ensaio inserindo atualizações no próprio texto de Lobato, mas logo desistimos. Mesmo com as mudanças, haveria o entorno da obra, que não poderia ser modificado. Se ele citava muitas vezes a palavra "rapé", que nem deve ser usada pela juventude de hoje, atualizaríamos "rapé" pelo quê? - diz a editora-executiva da Globo, Arlete Alonso.
A edição será respeitosa à letra de Lobato, mas será uma obra comentada, garante Arlete, para garantir que o volume possa ser usado como material de apoio a professores.
- Fizemos questão de manter a linguagem original. Optamos por não incluir glossário para estimular as crianças a pesquisar o significado das palavras no dicionário - escreve Lúcia Machado, diretora da Unidade de Negócios Infantis da Globo.
Cautela

Alguns comentários vão se referir a ajustes pontuais de terminologia. Lobato, por exemplo, usava "verbo passivo" em lugar de "voz passiva", hoje mais preciso. Mas há considerações de natureza mais conceitual e problemática.
Quindim apresenta as cidades do País da Gramática: em Anglópolis moram mais de 500 palavras; em Galópolis vivem as palavras francesas; em Castelópolis, as espanholas e em Italópolis, as italianas. Ao comentar esse trecho, os especialistas da Globo perceberam que Lobato, para mastigar melhor os conceitos de sua época, terminou por reduzir o mundo das palavras ao da gramática. Na verdade, defendem os especialistas, a gramática rege a língua, não necessariamente as palavras do idioma, pois elas têm dimensões semântica, sonora e lingüística que não se contemplariam de todo apenas com o estudo gramatical.
- É o tipo de conhecimento de que se tem noção hoje, mas seria descabido Lobato deter-se nele. Seu objetivo era simplificar as coisas para as crianças entenderem um pouco mais o idioma - pondera Arlete.
Daí a cautela em "atualizar, preservando".
- Não se atualiza um clássico. Por isso, haverá apenas um enriquecimento crítico do volume - esclarece Vladimir Sacchetta, biógrafo de Lobato.
Co-autor do renomado Furacão na Botocúndia (Senac São Paulo, 1997), ao lado de Marcia Camargos e Carmen Lucia de Azevedo, Sacchetta é um dos consultores da editora para pesquisas e estudos introdutórios às novas edições, em companhia de Márcia.
- A aposta de Lobato era estimular a criança a entender os fenômenos da língua - diz Sacchetta.
O relançamento da obra completa deve contornar os problemas de edição que marcaram outras versões, mesmo as fundadas na compilação consolidada pelo próprio Lobato, em meados dos anos 40. Agora, os editores querem evitar saltos de texto e a transformação de capítulos em livros independentes (exceção de Reinações de Narizinho, que ganhou dois volumes), além de tipologias e entrelinhas que mais dificultam que facilitam a leitura.
Atual

Lobato habitou o mercado brasileiro de literatura infantil com tipos tropicais, misturou cultura nacional à universal, salpicou moralidades menos caretas e injetou dose cavalares de fantasia à fórmula. Foi contra a corrente dos textos para criança de seu tempo, marcados pela linguagem complicada e pelos personagens estrangeiros em ambientes estranhos à cultura brasileira.
- O certo em literatura é escrever com o mínimo possível de literatura - escreveu ao amigo e colega de faculdade (Direito) Godofredo Rangel, em 1º de fevereiro de 1943. A mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me.
O universo infantil construído por Lobato há quase 90 anos (desde 1920, com A Menina do Narizinho Arrebitado), pode hoje padecer de um doce anacronismo - o da serviçal pós-escrava, o da menina cujo sonho é casar, o do garoto cujo destino é dominar o mundo, o da promessa de maravilhas escondidas na mesmice rural. Numa passagem aparentemente marginal ao tema de Brasil, o país da bola (Best Editora, 1989), no entanto, a psicanalista Betty Milan deu a chave do tamanho da vitalidade do Sítio do Picapau Amarelo em nosso imaginário:
"À criança européia o adulto ensina com Chapeuzinho Vermelho a não desobedecer e com Pinóquio a não mentir; à brasileira ensinamos com Emília, personagem de Monteiro Lobato, a fazer de conta".
A força de Emília no país da gramática, portanto, não está tanto nos conteúdos gramaticais, que sempre se pode atualizar; mas no faz-de-conta, com que o autor elogiou a gramática ao pirlimpimpimente negá-la. Em suas fantasias mais peraltas, Monteiro Lobato torneou seu sítio das delícias de brincar, como alguém que, distraído, joga a fórmula fora e parte para a próxima aventura.
Em sintonia com Saussure
O batismo do rinoceronte Quindim é uma das traquinagens da boneca de pano criada por Monteiro Lobato, em Emília no País da Gramática. Em livro anterior, Reinações de Narizinho (1931), o personagem já aparecia, sem nome. O diálogo que dá registro a Quindim acompanha um conceito caro ao lingüista suiço Ferdinand de Saussure: a arbitrariedade do signo.
"Nisto dobraram uma curva do caminho e avistaram ao longe o casario duma cidade. Na mesma direção, mais para além, viam-se outras cidades do mesmo tipo.
- Que tantas cidades são aquelas, Quindim? - perguntou Emília.
Todos olharam para a boneca, franzindo a testa. Quindim? Não havia ali ninguém com semelhante nome.
- Quindim - explicou Emília - é o nome que resolvi botar no rinoceronte.- Mas que relação há entre o nome Quindim, tão mimoso, e um paquiderme cascudo destes? - perguntou o menino, ainda surpreso.- A mesma que há entre a sua pessoa, Pedrinho, e a palavra Pedro - isto é, nenhuma. Nome é nome, não precisa ter relação com o "nomado". Eu sou Emília, como podia ser Teodora, Inácia, Hilda ou Cunegundes..."


Obra de Monteiro Lobato é relançada com revisão de termos e de perspectivas sobre o ensino da língua no país
Luiz Costa Pereira Junior

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